segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sete oitavas e três "cunhão".


   Raivosa e certeira. Assim poderia ser definida a musicalidade de Jerry Lee Lewis. Como também poderia ser resumida a partir de quaisquer outros adjetivos que abarquem a ideia de fúria e impacto, disseminados por cada nota disparada pelas teclas de seu piano incendiário.

   Em cada canção gravada, encontra-se o inconfundível cheiro de pólvora em combustão. É possível ouvir o crepitar dos acordes, e sua voz é um aviso intimidador: cuidado, rock’n roll autêntico e subversivo!
Mas Lewis não precisa de apresentações ou prólogos acadêmicos. Para alguém que compõe a santíssima trindade do rock, junto a Elvis e Little Richard, qualquer discurso introdutório é raso.

   Em uma análise primária, destaca-se a faceta mais difundida pelos veículos de comunicação: o rebelde ídolo teen. Mais por questões de apelo comercial, pois uma polêmica que vende é sempre bem-vinda, do que por apreço à investigação de um fenômeno artístico nascente, foi esse o tratamento recebido pelo músico durante muito tempo. Verdade seja dita, com apresentações marcadas por tumultos e incitações à transgressão dos costumes vigentes, além de um consumo alienígena de álcool e outros entorpecentes, Jerry Lee Lewis era um prato cheio para os hebdomadários sensacionalistas.

   A despeito dos escândalos atrelados a sua vida pessoal, foi sua força criativa e sua intuição musical, além do carisma e presença de palco quase sobre-humanos, que lhe garantiram o status de lenda. Porém, como nos demais mitos, os holofotes direcionaram-se para as excentricidades cometidas ao longo de sua nada careta biografia, relegando sua obra ao segundo plano.

   Em 1956, ano de lançamento do primeiro single do músico, as opções de entretenimento disponíveis para adolescentes e jovens ocidentais resumiam-se a matinês e canções de intérpretes tão inocentes quanto a audiência incipiente. Mas essa geração, atingida pelos terrores da 2ª guerra mundial, ansiava por uma arte mais sintonizada com suas experiências e visão do mundo. A força dos seus hormônios contrastava com a sobriedade excessiva dos boleros e standarts presentes na programação musical de qualquer rádio da época.   
   
   Munido de oitenta e cinco teclas, conflitos espirituais, demônios da juventude e uma safadeza só comparada à libido do Sergey (o músico pansexual que catou a Janis Joplin, bem como a toalha de praia e a canga dela), Lewis desafiou as barreiras sociais e morais de seu tempo, levando ao grande público um tipo de som que, embora descenda, entre outros gêneros, do gospel, convencionou-se a chamar de música do diabo.

   Caos, desordem e confusão são alguns dos termos os quais, geralmente, acompanham as descrições acerca desse artista. Acrescente genialidade, ousadia, impetuosidade e talento e você terá uma vaga ideia do homem por trás de “great balls of fire” e outros monólitos em forma de acordes.

Abaixo, uma apresentação "morna" do dito-cujo em Londres, no distante ano de 1972. O "coroa" tinha uns 37 anos e já havia enterrado um filho. Pode pegar o capacete... :D



Nenhum comentário:

Postar um comentário