sábado, 30 de junho de 2012

Uma de crônicas de três acordes (para um sábado de SKA)

NAQUELA MESA TÁ FALTANDO UM...
Mário Prata
Estava ontem sozinho jantando num restaurante. Cinco mesas ocupadas, incluindo a minha. Quatro casais e eu, sozinho.
Mesa um: estava claro que era o primeiro encontro entre os dois. Dava para perceber que um fazia muita pergunta para o outro. E riam muito, os dois. Percebia-se que ali estava acontecendo uma conquista de ambos os lados. Os dois cheios de solicitudes. Ficarei aguardando até que peguem na mão. Como sorriem um para o outro.
Mesa dois: outro casal ali pela casa dos 30, 35 anos. O pau está quebrando feio. Falam um pouco alto. Percebe-se que estão discutindo a relação. Só eles não devem saber que quando se discute a relação é porque não existe mais relação. A mulher está na ofensiva. Chego até a ficar um pouco com pena do homem. Aquilo não vai acabar bem.
Mesa três: sabe aquele casal que vai jantar fora sei lá porque? Não falam entre si. Apenas com o garçom. Aliás, ela não fala nem com o garçom. Ele pergunta, ela diz para o marido e ele pede ao serviçal. Estão entre os 50 e cinqüenta anos. Ela faz parte daquela geração – sabe-se lá o porque – que não fala com garçom, conhece? Eles já devem ter discutido muito a relação anos atrás e chegaram à conclusão que a vida é assim mesmo, fazer o que, vamos comer em silêncio.
Mesa quatro: um casal de velhinhos. Resolvidos, felizes. O casal mais feliz do lugar. Ela conta histórias longas, lentas e ele presta atenção, como se fosse a primeira vez que ela estivesse narrando aquilo. Ele alisa o braço dela, eles devem se amar há mais de cinqüenta anos. Pelo jeitão, ela deve estar contando a última traquinagem de um neto. O velho é só sorrisos. Vida resolvida, nada a discutir.
Mesa um: o rapaz pede mais uma caipirinha. A moça me pareceu perguntar: mais uma? Mas ele confirma com o garçom.
Mesa dois: a mulher se levanta e vai – irritadíssima – para o banheiro. O marido, sozinho, bufa, pega o celular e disca rapidamente. No telefonema é só sorrisos. Uma outra mulher? E quem me garante que ela não está fazendo o mesmo lá do banheiro?
Mesa três: comem em silêncio.
Mesa quatro: os dois estão vendo um álbum de fotos. Pagaria a conta deles para ver as fotos. Olham, comentam, riem. Ela dá um beijinho na bochecha ele. Ele percebe que eu vi. Sorri meio envergonhado para mim. Eu faço um sinal de positivo para ele.
Mesa dois: ela volta. Ele já acabou o telefone. Ela empurra o prato. Ele chama o garçom, pede a conta.
Mesa um: o rapaz está falando muito alto. Vai perder a gata.
Mesa dois: antes de chegar a conta, ela se manda e entra no carro. É ela quem dirige. A grana dele ser dela. O marido vai até o balcão.
Mesa um: o cara tenta beijar a moça. Ela, educadamente refuta.
Mesa três: ele pede a sobremesa para os dois. Ainda não se falaram.
Mesa um: começa a quebrar o pau. O pessoal da mesa três apenas observa.
Mesa quatro: os dois velhinhos estão abraçados. Chega uma champanha. Estoura. O velhinho mandar servir para mim e para as outras mesas. O rapaz da caipirinha gosta da idéia. O cara da mesa dois sai. Inesperadamente, depois do gole de champanha, o casal mudo se beija na boca.
O som do restaurante aumenta. Começa a chover.



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Kafka de C é R! Ou como criar um notícia fantástica.


  Pensar dói, mas calar é muito mais dilacerante. Vá por mim! Tentar bolar alguma frase, um pouco menos idiota do que suas conversas rotineiras, a fim de se aproximar da “boyzinha” é, na maior parte das vezes, muito complicado. Mas emudecer diante da criatura desejada é uma machadada no coração. Quem é tímido, ou donzelo, sabe do que estou falando (incluindo a besta que tecla essas linhas). Agora, se nos sentimos açoitados pela falta de coragem no campo sentimental, imagine o desastre que é não expressar sua voz enquanto cidadão (ou cidadã. Dei o exemplo do menino apaixonado, porque, até agora, ainda não me encantei por barbas ou dorsos masculinos bem delineados que... ui! Melhor parar por aqui.).

  Quando um indivíduo sai às ruas para protestar, está dizendo não ao silêncio que lhe rouba a vida. Quando um rei solta “por que no te callas?”, ele deseja tão somente a morte momentânea de uma ideia (e também se poupar dos absurdos e chatices que algum fictício político sul-americano adora propalar).

  Em uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus (hipoteticamente falando. Isso nunca ocorreu em Recife), os manifestantes gritam para que a omissão não lhes torture. A polícia, ao agir com violência desmedida e sob ordens do Estado, quer garantir a soberania da mediocridade, do silêncio (nota: a polícia não é A culpada. É um mecanismo que, quando mal utilizado, serve aos propósitos de quem a comanda, não à população em geral).  

   Entretanto, não são apenas as instituições públicas que nos selam os lábios. A imprensa que não (in)forma, servindo a interesses contrários aos da população (mas muito úteis para certos membros da sociedade), é um instrumento poderoso para nos roubar a voz. No lugar de expor os as condições em que trabalham os motoristas e cobradores de ônibus, sujeitos (como todo cidadão) a assaltos, trânsito caótico e rotinas  de trabalho massacrantes, essa imprensa nos faz pensar que o trânsito está melhor sem os coletivos nas ruas (melhor pra quem? Pra a esmagadora parcela que não possui carros particulares e depende do transporte público ou para um círculo restrito de trabalhadores que têm, por mérito próprio, um possante pra chamar de seu?). Diante do absurdo dessa situação, um grande escritor Tcheco, conhecido por viajar mais que matador em terra de coronel e escrever umas histórias “sem pé nem cabeça”, proferiu a seguinte frase: ARREGUEI! E, nesse passo, a diarista fica com raiva do estudante, que fica com raiva do policial, que fica puto com o motorista grevista que “não quer trabalhar”.

   Findo o dia, naquela integração LAITÊZA, na parada de ônibus descoberta e metralhada pela chuva, na rua mal iluminada e “POCO SUSPEITA”, o camarada vai PENSAR: “ainda bem que eu leio jornal e SEI o motivo de estar aqui na merda, sem transporte (porém, com o trânsito livre).” O problema todo, meu bom, é pensar apenas. Isso vai te custar muito mais do que um celular roubado ou um uma carteira. Vai te custar uma vida que poderia ter sido, mas devido ao silêncio, nunca será.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Brasa


   Com a consciência acesa é mais fácil ter o corpo em chamas. A essa conclusão, chega-se vivendo (porque, morrendo, não chegamos a lugar algum). Dos nossos desejos, tenho a impressão de que a maior parte é fruto de um apagão. A (quase) total falta de claridade põe-nos como bonecos fáceis de serem manipulados. No escuro, somos levados por anseios que, mormente, estão muito longe de nossas “verdades”, que eu prefiro chamar de repertório de vida. E quanto maior a distância entre o que “somos” e o lugar para onde “nos levam”, mais fria é a nossa existência.

   Daí a importância de abrasar nossa mente. No momento em que alimentamos as fagulhas de nosso pensamento, estamos, analogamente, comportando-nos como nossos ancestrais ao descobrirem o fogo: uma revolução dividirá nossas vidas em antes e depois desse achado. Assim como o calor físico gerado conscientemente, uma cabeça incandescente mostrará novas formas de se “preparar” (conceber) e consumir ideias. Ao invés de sermos passivos, recebendo um conteúdo pronto ou “in natura”, somos capazes de refiná-lo, modificá-lo ao nosso gosto, mudar radicalmente suas propriedades para melhor absorver seus nutrientes. Também de modo similar, o fogo nos mostra caminhos antes relegados à escuridão. Alonga nossa produtividade, como a lamparinas estendem o dia. Da mesma forma, também nossos medos são afugentados, porque a claridade nos faz perceber que quase todos são frutos da imaginação (tanto os monstros da infância quanto as frustrações da vida adulta). Os perigos reais mantêm-se distantes, igualmente, pois nem bichos, nem ideias nocivas à vida possuem a coragem para atacar quem tiver o fogo como aliado.

   Dessa feita, se consideramos mortos aqueles cujos corpos não produzem calor, cuidemos para não deixar de viver ainda em vida, congelados em movimento e vazios como corpos dissecados em bancas de faculdade.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pagando as despesas


   Logicamente, precisamos de um tempo. É fato. Não há nada de novo e, talvez, seja esse o problema. Não se aborreça agora, deixei as ofensas para o final.

   “Deveríamos ter ido mais ao cinema”, essa é a primeira coisa que me vem à cabeça ao pensar em nós dois enquanto dois. Mas somos tão “uns” agora, separados por uma Rússia, com os mesmo desertos gelados entrecortando nossas (raras) conversas. Lembra como conversávamos depois de transar? Deitados em yin yang, tocando as solas dos pés com os dedos e levitando acima da cama. A Cama, por sinal, é a única coisa que se mostrou perene nisso tudo. A Cama e o seu cheiro, na verdade.

   Por favor, não ria. Eu estou sendo sincero nesse aspecto.

   Nem me pergunte a razão desta conversa. Primeiro, porque nunca fui racional nas minhas ações. Segundo, não te dei o direito de me interromper. Que mania chata de atravessar minha fala! Tá vendo? Desculpe por levantar a voz, mas você insiste em não colaborar. Aproveitando que entramos nesse assunto, sua interrupção, a outra coisa que, vez em sempre, martela meu juízo é a minha inabilidade em expressar meus sentimentos. Não confunda com ausência de carinho, de demonstrações públicas (e privadas) de afeto. Isso eu lhe ofereci em abundância. O problema sempre foi minha omissão: aceitar as coisas que me contrariavam. Ter medo de enfrentar suas opiniões, de lhe contrariar (e você fica tão bonita de cara amarrada). Exato! É dessa cara que eu estava falando, mas agora o encanto já não seduz.

   Se você chorar, vou lhe pedir que o faça silenciosamente. Nunca surtiram efeito as minhas súplicas para que você evitasse derramar esse rio de água salgada durante nossas discussões. Mas ainda considero isso um golpe baixo, que fique bem claro.

   Tenha paciência, estou chegando ao fim.

   Quero você na minha rotina, mas não no meu coração. Consegue entender? Relaxe, eu também não.