segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Brasa


   Com a consciência acesa é mais fácil ter o corpo em chamas. A essa conclusão, chega-se vivendo (porque, morrendo, não chegamos a lugar algum). Dos nossos desejos, tenho a impressão de que a maior parte é fruto de um apagão. A (quase) total falta de claridade põe-nos como bonecos fáceis de serem manipulados. No escuro, somos levados por anseios que, mormente, estão muito longe de nossas “verdades”, que eu prefiro chamar de repertório de vida. E quanto maior a distância entre o que “somos” e o lugar para onde “nos levam”, mais fria é a nossa existência.

   Daí a importância de abrasar nossa mente. No momento em que alimentamos as fagulhas de nosso pensamento, estamos, analogamente, comportando-nos como nossos ancestrais ao descobrirem o fogo: uma revolução dividirá nossas vidas em antes e depois desse achado. Assim como o calor físico gerado conscientemente, uma cabeça incandescente mostrará novas formas de se “preparar” (conceber) e consumir ideias. Ao invés de sermos passivos, recebendo um conteúdo pronto ou “in natura”, somos capazes de refiná-lo, modificá-lo ao nosso gosto, mudar radicalmente suas propriedades para melhor absorver seus nutrientes. Também de modo similar, o fogo nos mostra caminhos antes relegados à escuridão. Alonga nossa produtividade, como a lamparinas estendem o dia. Da mesma forma, também nossos medos são afugentados, porque a claridade nos faz perceber que quase todos são frutos da imaginação (tanto os monstros da infância quanto as frustrações da vida adulta). Os perigos reais mantêm-se distantes, igualmente, pois nem bichos, nem ideias nocivas à vida possuem a coragem para atacar quem tiver o fogo como aliado.

   Dessa feita, se consideramos mortos aqueles cujos corpos não produzem calor, cuidemos para não deixar de viver ainda em vida, congelados em movimento e vazios como corpos dissecados em bancas de faculdade.

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