Com a consciência
acesa é mais fácil ter o corpo em chamas. A essa conclusão,
chega-se vivendo (porque, morrendo, não chegamos a lugar algum). Dos
nossos desejos, tenho a impressão de que a maior parte é fruto de
um apagão. A (quase) total falta de claridade põe-nos como bonecos
fáceis de serem manipulados. No escuro, somos levados por anseios
que, mormente, estão muito longe de nossas “verdades”, que eu
prefiro chamar de repertório de vida. E quanto maior a distância
entre o que “somos” e o lugar para onde “nos levam”, mais
fria é a nossa existência.
Daí a importância de
abrasar nossa mente. No momento em que alimentamos as fagulhas de
nosso pensamento, estamos, analogamente, comportando-nos como nossos
ancestrais ao descobrirem o fogo: uma revolução dividirá nossas
vidas em antes e depois desse achado. Assim como o calor físico
gerado conscientemente, uma cabeça incandescente mostrará novas
formas de se “preparar” (conceber) e consumir ideias. Ao invés
de sermos passivos, recebendo um conteúdo pronto ou “in natura”,
somos capazes de refiná-lo, modificá-lo ao nosso gosto, mudar
radicalmente suas propriedades para melhor absorver seus nutrientes.
Também de modo similar, o fogo nos mostra caminhos antes relegados à
escuridão. Alonga nossa produtividade, como a lamparinas estendem o
dia. Da mesma forma, também nossos medos são afugentados, porque a
claridade nos faz perceber que quase todos são frutos da imaginação
(tanto os monstros da infância quanto as frustrações da vida
adulta). Os perigos reais mantêm-se distantes, igualmente, pois nem
bichos, nem ideias nocivas à vida possuem a coragem para atacar quem
tiver o fogo como aliado.
Dessa feita, se
consideramos mortos aqueles cujos corpos não produzem calor,
cuidemos para não deixar de viver ainda em vida, congelados em
movimento e vazios como corpos dissecados em bancas de faculdade.
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