sábado, 30 de junho de 2012

Uma de crônicas de três acordes (para um sábado de SKA)

NAQUELA MESA TÁ FALTANDO UM...
Mário Prata
Estava ontem sozinho jantando num restaurante. Cinco mesas ocupadas, incluindo a minha. Quatro casais e eu, sozinho.
Mesa um: estava claro que era o primeiro encontro entre os dois. Dava para perceber que um fazia muita pergunta para o outro. E riam muito, os dois. Percebia-se que ali estava acontecendo uma conquista de ambos os lados. Os dois cheios de solicitudes. Ficarei aguardando até que peguem na mão. Como sorriem um para o outro.
Mesa dois: outro casal ali pela casa dos 30, 35 anos. O pau está quebrando feio. Falam um pouco alto. Percebe-se que estão discutindo a relação. Só eles não devem saber que quando se discute a relação é porque não existe mais relação. A mulher está na ofensiva. Chego até a ficar um pouco com pena do homem. Aquilo não vai acabar bem.
Mesa três: sabe aquele casal que vai jantar fora sei lá porque? Não falam entre si. Apenas com o garçom. Aliás, ela não fala nem com o garçom. Ele pergunta, ela diz para o marido e ele pede ao serviçal. Estão entre os 50 e cinqüenta anos. Ela faz parte daquela geração – sabe-se lá o porque – que não fala com garçom, conhece? Eles já devem ter discutido muito a relação anos atrás e chegaram à conclusão que a vida é assim mesmo, fazer o que, vamos comer em silêncio.
Mesa quatro: um casal de velhinhos. Resolvidos, felizes. O casal mais feliz do lugar. Ela conta histórias longas, lentas e ele presta atenção, como se fosse a primeira vez que ela estivesse narrando aquilo. Ele alisa o braço dela, eles devem se amar há mais de cinqüenta anos. Pelo jeitão, ela deve estar contando a última traquinagem de um neto. O velho é só sorrisos. Vida resolvida, nada a discutir.
Mesa um: o rapaz pede mais uma caipirinha. A moça me pareceu perguntar: mais uma? Mas ele confirma com o garçom.
Mesa dois: a mulher se levanta e vai – irritadíssima – para o banheiro. O marido, sozinho, bufa, pega o celular e disca rapidamente. No telefonema é só sorrisos. Uma outra mulher? E quem me garante que ela não está fazendo o mesmo lá do banheiro?
Mesa três: comem em silêncio.
Mesa quatro: os dois estão vendo um álbum de fotos. Pagaria a conta deles para ver as fotos. Olham, comentam, riem. Ela dá um beijinho na bochecha ele. Ele percebe que eu vi. Sorri meio envergonhado para mim. Eu faço um sinal de positivo para ele.
Mesa dois: ela volta. Ele já acabou o telefone. Ela empurra o prato. Ele chama o garçom, pede a conta.
Mesa um: o rapaz está falando muito alto. Vai perder a gata.
Mesa dois: antes de chegar a conta, ela se manda e entra no carro. É ela quem dirige. A grana dele ser dela. O marido vai até o balcão.
Mesa um: o cara tenta beijar a moça. Ela, educadamente refuta.
Mesa três: ele pede a sobremesa para os dois. Ainda não se falaram.
Mesa um: começa a quebrar o pau. O pessoal da mesa três apenas observa.
Mesa quatro: os dois velhinhos estão abraçados. Chega uma champanha. Estoura. O velhinho mandar servir para mim e para as outras mesas. O rapaz da caipirinha gosta da idéia. O cara da mesa dois sai. Inesperadamente, depois do gole de champanha, o casal mudo se beija na boca.
O som do restaurante aumenta. Começa a chover.



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Kafka de C é R! Ou como criar um notícia fantástica.


  Pensar dói, mas calar é muito mais dilacerante. Vá por mim! Tentar bolar alguma frase, um pouco menos idiota do que suas conversas rotineiras, a fim de se aproximar da “boyzinha” é, na maior parte das vezes, muito complicado. Mas emudecer diante da criatura desejada é uma machadada no coração. Quem é tímido, ou donzelo, sabe do que estou falando (incluindo a besta que tecla essas linhas). Agora, se nos sentimos açoitados pela falta de coragem no campo sentimental, imagine o desastre que é não expressar sua voz enquanto cidadão (ou cidadã. Dei o exemplo do menino apaixonado, porque, até agora, ainda não me encantei por barbas ou dorsos masculinos bem delineados que... ui! Melhor parar por aqui.).

  Quando um indivíduo sai às ruas para protestar, está dizendo não ao silêncio que lhe rouba a vida. Quando um rei solta “por que no te callas?”, ele deseja tão somente a morte momentânea de uma ideia (e também se poupar dos absurdos e chatices que algum fictício político sul-americano adora propalar).

  Em uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus (hipoteticamente falando. Isso nunca ocorreu em Recife), os manifestantes gritam para que a omissão não lhes torture. A polícia, ao agir com violência desmedida e sob ordens do Estado, quer garantir a soberania da mediocridade, do silêncio (nota: a polícia não é A culpada. É um mecanismo que, quando mal utilizado, serve aos propósitos de quem a comanda, não à população em geral).  

   Entretanto, não são apenas as instituições públicas que nos selam os lábios. A imprensa que não (in)forma, servindo a interesses contrários aos da população (mas muito úteis para certos membros da sociedade), é um instrumento poderoso para nos roubar a voz. No lugar de expor os as condições em que trabalham os motoristas e cobradores de ônibus, sujeitos (como todo cidadão) a assaltos, trânsito caótico e rotinas  de trabalho massacrantes, essa imprensa nos faz pensar que o trânsito está melhor sem os coletivos nas ruas (melhor pra quem? Pra a esmagadora parcela que não possui carros particulares e depende do transporte público ou para um círculo restrito de trabalhadores que têm, por mérito próprio, um possante pra chamar de seu?). Diante do absurdo dessa situação, um grande escritor Tcheco, conhecido por viajar mais que matador em terra de coronel e escrever umas histórias “sem pé nem cabeça”, proferiu a seguinte frase: ARREGUEI! E, nesse passo, a diarista fica com raiva do estudante, que fica com raiva do policial, que fica puto com o motorista grevista que “não quer trabalhar”.

   Findo o dia, naquela integração LAITÊZA, na parada de ônibus descoberta e metralhada pela chuva, na rua mal iluminada e “POCO SUSPEITA”, o camarada vai PENSAR: “ainda bem que eu leio jornal e SEI o motivo de estar aqui na merda, sem transporte (porém, com o trânsito livre).” O problema todo, meu bom, é pensar apenas. Isso vai te custar muito mais do que um celular roubado ou um uma carteira. Vai te custar uma vida que poderia ter sido, mas devido ao silêncio, nunca será.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Brasa


   Com a consciência acesa é mais fácil ter o corpo em chamas. A essa conclusão, chega-se vivendo (porque, morrendo, não chegamos a lugar algum). Dos nossos desejos, tenho a impressão de que a maior parte é fruto de um apagão. A (quase) total falta de claridade põe-nos como bonecos fáceis de serem manipulados. No escuro, somos levados por anseios que, mormente, estão muito longe de nossas “verdades”, que eu prefiro chamar de repertório de vida. E quanto maior a distância entre o que “somos” e o lugar para onde “nos levam”, mais fria é a nossa existência.

   Daí a importância de abrasar nossa mente. No momento em que alimentamos as fagulhas de nosso pensamento, estamos, analogamente, comportando-nos como nossos ancestrais ao descobrirem o fogo: uma revolução dividirá nossas vidas em antes e depois desse achado. Assim como o calor físico gerado conscientemente, uma cabeça incandescente mostrará novas formas de se “preparar” (conceber) e consumir ideias. Ao invés de sermos passivos, recebendo um conteúdo pronto ou “in natura”, somos capazes de refiná-lo, modificá-lo ao nosso gosto, mudar radicalmente suas propriedades para melhor absorver seus nutrientes. Também de modo similar, o fogo nos mostra caminhos antes relegados à escuridão. Alonga nossa produtividade, como a lamparinas estendem o dia. Da mesma forma, também nossos medos são afugentados, porque a claridade nos faz perceber que quase todos são frutos da imaginação (tanto os monstros da infância quanto as frustrações da vida adulta). Os perigos reais mantêm-se distantes, igualmente, pois nem bichos, nem ideias nocivas à vida possuem a coragem para atacar quem tiver o fogo como aliado.

   Dessa feita, se consideramos mortos aqueles cujos corpos não produzem calor, cuidemos para não deixar de viver ainda em vida, congelados em movimento e vazios como corpos dissecados em bancas de faculdade.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pagando as despesas


   Logicamente, precisamos de um tempo. É fato. Não há nada de novo e, talvez, seja esse o problema. Não se aborreça agora, deixei as ofensas para o final.

   “Deveríamos ter ido mais ao cinema”, essa é a primeira coisa que me vem à cabeça ao pensar em nós dois enquanto dois. Mas somos tão “uns” agora, separados por uma Rússia, com os mesmo desertos gelados entrecortando nossas (raras) conversas. Lembra como conversávamos depois de transar? Deitados em yin yang, tocando as solas dos pés com os dedos e levitando acima da cama. A Cama, por sinal, é a única coisa que se mostrou perene nisso tudo. A Cama e o seu cheiro, na verdade.

   Por favor, não ria. Eu estou sendo sincero nesse aspecto.

   Nem me pergunte a razão desta conversa. Primeiro, porque nunca fui racional nas minhas ações. Segundo, não te dei o direito de me interromper. Que mania chata de atravessar minha fala! Tá vendo? Desculpe por levantar a voz, mas você insiste em não colaborar. Aproveitando que entramos nesse assunto, sua interrupção, a outra coisa que, vez em sempre, martela meu juízo é a minha inabilidade em expressar meus sentimentos. Não confunda com ausência de carinho, de demonstrações públicas (e privadas) de afeto. Isso eu lhe ofereci em abundância. O problema sempre foi minha omissão: aceitar as coisas que me contrariavam. Ter medo de enfrentar suas opiniões, de lhe contrariar (e você fica tão bonita de cara amarrada). Exato! É dessa cara que eu estava falando, mas agora o encanto já não seduz.

   Se você chorar, vou lhe pedir que o faça silenciosamente. Nunca surtiram efeito as minhas súplicas para que você evitasse derramar esse rio de água salgada durante nossas discussões. Mas ainda considero isso um golpe baixo, que fique bem claro.

   Tenha paciência, estou chegando ao fim.

   Quero você na minha rotina, mas não no meu coração. Consegue entender? Relaxe, eu também não.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Quase um passeio de bonde.


Rapaz, eu me considero uma pessoa sociável, muito sociável, SOCIÁVEL ATÉ DEMAIS. Gosto de gente e sempre me senti muito à vontade para me relacionar com quase todo tipo de pessoa. Acontece que a expressão “calor humano” torna-se ridiculamente literal dentro de um “Shopping/CDU” lotado em dia de toró (Alô rapaziada do Barro/Macaxeira e do Sweet River/CDU: TAMO JUNTO!). Lotado não, porque, para ser qualificado assim, as SESSENTA E DUAS pessoas sentadas na tampa do motor teriam que lavrar do busão. Estava tão quente que o leve aumento no volume da minha roupa íntima eram meus testículos cozidos e não uma ereção involuntária causada pela “infregação” a que somos submetidos no coletivo nosso de cada dia.

Por falar em lotação, aqui vai uma dica para o pessoal responsável pela publicidade das empresas de ônibus que fazem a linha supracitada (e concorrem com a marca “Gomes da Costa”): “Nas nossas latas de sardinha cabem muito mais recheio!”

Desculpem-me pela perda de foco, voltemos a falar sobre a temperatura da condução, que oscilava entre núcleo solar e meio-dia na Guararapes. Eu acho muito bacana quando a Secretaria de Transportes apoia ações voltadas para a população. Sem custos adicionais (na verdade, sem custo nenhum, pois investimento não rima com transporte público), o cidadão que opta por usufruir dos ônibus pode desfrutar de uma DE-LI-CI-O-SA “sauna seca”! Seca não, uma vez que os FUROS engenhosamente “instalados” no teto permitiam a entrada de “pequenas” gotas de chuva que, gradativamente, juntavam-se para formar o CHUVEIRÃO existente em toda sauna. Meu amigo, se continuar assim, o cabra vai ter que apresentar, além do “VEM”, um exame médico comprovando que o caboclo está com a saúde em dia e pode frequentar o “ambiente”.

Brincadeiras à parte, mesmo diante de uma situação como essa, é preciso estar consciente de que, assim como as pilhas, tudo na vida tem seu lado positivo (ainda bem que eu não ganho a vida escrevendo piada, hein?). Com a redução de IPI para automóveis, promovida com muita SAPIÊNCIA por Dudu, grande parte dos indivíduos que me acompanharam na aventura irá poder desfrutar de um trânsito MAIS caótico, insano e infernal de dentro de seus maravilhosos automóveis 1.0. Provavelmente, desprovidos de ar-condicionado...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sete oitavas e três "cunhão".


   Raivosa e certeira. Assim poderia ser definida a musicalidade de Jerry Lee Lewis. Como também poderia ser resumida a partir de quaisquer outros adjetivos que abarquem a ideia de fúria e impacto, disseminados por cada nota disparada pelas teclas de seu piano incendiário.

   Em cada canção gravada, encontra-se o inconfundível cheiro de pólvora em combustão. É possível ouvir o crepitar dos acordes, e sua voz é um aviso intimidador: cuidado, rock’n roll autêntico e subversivo!
Mas Lewis não precisa de apresentações ou prólogos acadêmicos. Para alguém que compõe a santíssima trindade do rock, junto a Elvis e Little Richard, qualquer discurso introdutório é raso.

   Em uma análise primária, destaca-se a faceta mais difundida pelos veículos de comunicação: o rebelde ídolo teen. Mais por questões de apelo comercial, pois uma polêmica que vende é sempre bem-vinda, do que por apreço à investigação de um fenômeno artístico nascente, foi esse o tratamento recebido pelo músico durante muito tempo. Verdade seja dita, com apresentações marcadas por tumultos e incitações à transgressão dos costumes vigentes, além de um consumo alienígena de álcool e outros entorpecentes, Jerry Lee Lewis era um prato cheio para os hebdomadários sensacionalistas.

   A despeito dos escândalos atrelados a sua vida pessoal, foi sua força criativa e sua intuição musical, além do carisma e presença de palco quase sobre-humanos, que lhe garantiram o status de lenda. Porém, como nos demais mitos, os holofotes direcionaram-se para as excentricidades cometidas ao longo de sua nada careta biografia, relegando sua obra ao segundo plano.

   Em 1956, ano de lançamento do primeiro single do músico, as opções de entretenimento disponíveis para adolescentes e jovens ocidentais resumiam-se a matinês e canções de intérpretes tão inocentes quanto a audiência incipiente. Mas essa geração, atingida pelos terrores da 2ª guerra mundial, ansiava por uma arte mais sintonizada com suas experiências e visão do mundo. A força dos seus hormônios contrastava com a sobriedade excessiva dos boleros e standarts presentes na programação musical de qualquer rádio da época.   
   
   Munido de oitenta e cinco teclas, conflitos espirituais, demônios da juventude e uma safadeza só comparada à libido do Sergey (o músico pansexual que catou a Janis Joplin, bem como a toalha de praia e a canga dela), Lewis desafiou as barreiras sociais e morais de seu tempo, levando ao grande público um tipo de som que, embora descenda, entre outros gêneros, do gospel, convencionou-se a chamar de música do diabo.

   Caos, desordem e confusão são alguns dos termos os quais, geralmente, acompanham as descrições acerca desse artista. Acrescente genialidade, ousadia, impetuosidade e talento e você terá uma vaga ideia do homem por trás de “great balls of fire” e outros monólitos em forma de acordes.

Abaixo, uma apresentação "morna" do dito-cujo em Londres, no distante ano de 1972. O "coroa" tinha uns 37 anos e já havia enterrado um filho. Pode pegar o capacete... :D



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"A cabeça é meio e não fim" (Caapora). Desculpe-me pela ausência.

Amável leitor,

Hoje é dia 10 de janeiro de 2012. O tempo é um recurso precioso. Usá-lo com parcimônia demanda razoável maturidade, por isso, não tenho conseguido aproveitá-lo da maneira como gostaria. Sem querer arranjar uma desculpa, mas já me desculpando de qualquer forma, ainda estou aprendendo a respeitar esse Senhor, cuja autoridade invisível, mas não imperceptível, guia os caminhos de todos nós. Paulatinamente, percebo a importância de viver plenamente o agora. Não quero me obrigar a estar em todos os lugares. Não quero urgência. Prefiro contemplação.

Sim, reconheço uma dose de “paulocoelhismo” no parágrafo acima. Nem sempre é possível escrever bem, ou com profundidade. Para sua infelicidade, sou uma pessoa superficial e que sofre de dislexia.

No intuito de abrir esse relato, se você me permitir, gostaria de falar de trabalho. Minha relação com ele sempre foi de amor e amor. Felizmente, até agora, tive muita sorte em todas as etapas profissionais da minha vida.

Sou graduado em Letras (grande merda, como diria Rodrigo e Diego) pela UFPE. Durante seis anos, fui professor de Redação, Literatura e “Gramática”. Ainda dou aulas, à noite, em um cursinho preparatório para concursos militares. Meu DNA é totalmente marcado pela licenciatura. Praticamente, todos os meus tios por parte de mãe, e minha genitora também, são professores. Pois é, poderiam ter estudado mais e feito um concurso público decente? Poderiam. Mas isso não interessa, o importante são as escolhas que fazemos. Caro leitor, não preciso fazer graça com essa profissão, uma vez que a maneira como ela é tratada no Brasil já é, por si só, uma PIADA. Se você não acredita, lanço um desafio: pegue o contracheque de algum docente e tente não rir por cinco segundos. Tá vendo? Em pessoas mais sensíveis, esse tipo de exposição causa uma depressão profunda, seguida de um sentimento de pena gigante. O pior de tudo é que a lógica perversa que guia a educação no Brasil é a seguinte: “se não não tá contente, pede pra sair, porque existem “trocentos” aí fora afim de entrar no seu lugar, bonitão”. Caso você não saiba, os professores formam a maior categoria profissional do país. A lei da oferta e procura, base da competitividade mercadológica, é usada de modo cruel nesse tema.


Insatisfeito com as condições de trabalho impostas por muitas escolas, mudei de área assim que surgiu uma oportunidade. Não foi uma traição, isso eu posso assegurar-lhe. Tornei-me revisor/redator de textos oficiais e corporativos em uma fábrica de software. Também sou responsável por redigir os manuais dos sistemas que desenvolvemos. Hoje em dia, além das atividades citadas, sou analista de qualidade. Dessa forma, saí do ambiente escolar, mas nunca me afastei da minha paixão: a Língua Portuguesa. Justificativa dada, podemos seguir adiante?

Calma, ainda não é a hora de falar sobre a minha rotina aqui. Antes, é preciso tecer alguns comentários acerca do lugar onde labuto no Brasil. O meu trampo é FODA! Eu sou um cara de muita sorte. Depois de passar por colégios muito bacanas (se alguém do CFI estiver lendo, por favor, manda uma abraço gigante pra Fabiano, O professor) cheguei a uma empresa que mede a produtividade não em horas, mas em sorrisos. Sem frescura, as pessoas da “firma” são fantásticas. A galera do desenvolvimento num trabalha pouco não, vu? A turma é terrorista. Minhas companheiras de sala, Dani e Day, são a materialização da palavra fofura e meus chefes, Ricardo e Regina, são a cereja do bolo. Leitor querido, se você gosta dessas correspondências, agradeça aos meus superiores. Sem a confiança e estímulo incondicional desses dois, eu provavelmente não estaria aqui. Não é babação, não preciso disso. Penso assim, para agradar meus chefes, não necessito ser bonzinho ou piadista. Preciso ser competente. Aprendi com eles ( e com Andréa Nobre) que TUDO na vida deve ser feito de corpo e alma. Vai fazer algo? Se jogue inteiramente naquilo. Coincidentemente, vim trabalhar em uma ONG cujos diretores pensam da MESMA FORMA. Essa é a razão pela qual a CECO é tampa de crush! (eita que essa é véa, né?). Pelo mesmo motivo, exigência na qualidade do trabalho apresentado, estou lascado de coisas para fazer.

Como havia uma lacuna em um dos projetos daqui, mudei de área de atuação. Agora estou envolvido com o tema “Mudanças Climáticas”. Resumidamente: tenho um artigo para escrever sobre “Mudanças Climáticas, Agricultura e Emissão de Gases Prejudiciais ao Meio Ambiente em Países Desenvolvidos e em Desenvolvimento.” É TROMBA! O assunto não se resume a aquecimento global, fique tranquilo. Mudanças climáticas são naturais e ocorreram durante toda a existência da Terra. Períodos glaciais e épocas mais quentes alternaram-se durante a história do planeta. O problema é como essas mudanças estão sendo afetadas pelo comportamento do homem e quais as consequências que elas poderão ocasionar para as gerações futuras e para outras espécies de vida que aqui habitam. Principalmente para pequenos agricultores e pescadores, as alterações dos ciclos climáticos, das durações das chuvas, das secas e a diminuição ou extinção de determinados ecossistemas têm prejudicado amplamente suas atividades; Esse fato tem chamado a atenção das autoridades de todo o mundo. É TENSO. Basicamente, tenho que comparar os dados oficiais de países desenvolvidos e em desenvolvimento acerca da emissão de gases prejudiciais à natureza. Hoje há uma pressão enorme em cima de nações como Brasil e Índia, para que diminuam suas taxas de emissão. Mas ao analisar a história desse problema, percebe-se que essas nações em quase nada contribuíram para a formação desse quadro catastrófico. A maior parte da culpa recai sobre as economias de primeiro mundo que, desde a revolução industrial, lançaram toneladas de gases tóxicos na atmosfera. O bagulho é doido, porque envolve MUITA POLÍTICA e MUUUUUITOS INTERESSES ECONÔMICOS.

Para elaborar o texto, tive que recorrer a um mói de fontes. Sou leigo no assunto, então, nada melhor do que mergulhar em artigos científicos para não passar tanta vergonha na hora de escrever. Estou tendo um pouco de dificuldade, pois o documento é em Inglês. Deixe-me ser sincero, fiz dois anos de curso, mas parei aos 15. Fazendo uma conta mais difícil do que uma derivada, eu constatei que estou há DEZ anos afastado da língua. Excetuando o primeiro período da faculdade, em que cursei Inglês 3 por quatro meses, há muito tempo não precisava me preocupar com gramática e coisas afins. Todo o meu conhecimento (ou meu quase-analfabetismo) advém de músicas, programas de TV, filmes e jornais. Eu não passo aperto, entendo tudo que me falam, inclusive os nativos da língua. Mas não sou capaz de elaborar sentenças complexas. Leio bem, escrevo medianamente, mas falar me põe em uma situação engraçada, pois, além de gago, fico inseguro. Ainda bem que não cometi nenhuma gafe até agora. Porém aposto que o pessoal fica rindo pelas minhas costas e pensando: Ó paí, que lapa de ignorante. Sabe nem conjugar os verbos. O bichinho deve estar com fome, pois come todos os plurais.

Cansado de tanto assunto sem graça? Não se aperreie, agradeço-lhe a atenção e, para tentar retribuir a gentileza, falarei sobre minhas andanças.

Entre mais jantares, laricas e rega-bofes, viajei (de trem, com uma galera cantando, outra galera tocando e outra galera pedindo para tirar foto com Ana, Solange, Martyna e eu) nesse final de semana para Ajmer e Pushkar. A primeira é uma cidade ao sudoeste de Jaipur e a segunda, um distrito daquela. Imagino que você esteja exausto de saber que a Índia é conhecida por todo seu misticismo e espiritualidade. De quinze em quinze dias o “Globo Repórter” faz uma matéria “exclusiva” sobre os enigmas deste lugar. Os outros programas são sobre a Amazônia e o Pantanal (bem abrangente o programa, né? Diversificado que só). Entretanto, ir a lugares sagrados, independente da religião, é incomparavelmente mais impactante. Ajmer é famosa por fazer parte da cadeia de montanhas conhecida por Aravalli Range, que se estende da casa de cacete até a puta que los pariò.Também é um dos mais populares destinos de pelegrinos muçulmanos, já que lá está localizado o Dargah Khwaja Saheb, um santuário, fundado pelo mais famoso santo Sufi (a corrente mística/comtemplativa do Islã) do subcontinente indiano. Moinuddin Chishti introduziu e estabeleceu a ordem Chishti no sul da Ásia, o que significa que ele é penico cheio. Né pouca merda não, vu? A mesquita é GIGANTE, mas, para minha frustração, parece muito uma feira-livre, no sentido comercial da palavra. Há muita devoção no local, mas também muito crowd, muita bagunça e muito empurra-empurra. No quesito “infregação”, o carnaval de Olinda tem muito a aprender com os indianos. Essa é uma das partes chatas aqui. Não adianta entrar em fila ou pedir licença. A figura toma a sua frente na maior cara de pau e tá pouco se lixando se você vai ficar com raiva. Até entendo um pouco essa atitude, afinal, para se viver num país com MAIS DE UM BILHÃO DE HABITANTES, as pessoas procuram estratégias de sobrevivência. É discutível, lógico, mas nós furamos fila de supermercado (não eu ou você, tô falando da maioria dos brasileiros que eu conheço), logo, temos cacife zero para abrir o bocão. Poderia falar que é um “jeitinho brasileiro” MUITO mais escrachado. Além do santuário, Ajmer possui um lago bem bonito (mas só pra tirar foto. O bagulho é sujo que faz pena), cercado por montanhas e cravado no meio de um parque bastante arborizado. Só, acabou-se a cidade. De lá, partimos de ônibus para Pushkar, situada a onze quilômetros de distância apenas. O nome do distrito significa “Nascida por causa da flor”. Quando os deuses queriam abençoar uma cidade, deixavam cair uma flor de lótus no lugar. Essa a é origem da alcunha, pelo que me falaram (e pelo que eu li na wikipédia). Nesse pico, está um dos únicos cinco templos existentes na TERRA dedicados a Brahma, o deus da criação (e inventor da famigerada Brahma Fresh, aquela mierda). Todos os outros foram devastados por guerras, religiosas ou seculares. Por esse caráter singular, é um dos cinco lugares sagrados de peregrinação dos Hindus, que hoje têm de dividir o espaço com centenas de gringos que só querem comprar lembrancinhas (cuidado com os comerciantes, eles tiram onda quando o assunto é se aproveitar dos turistas), comer e fumar um cigarro de artista. Verdade, lá existem diversos pontos em que o indivíduo pode fazer a cabeça. Contudo, não são recomendados, absolutamente. E outra coisa, para que uma pessoa iria perder tempo (e dinheiro) parada em um buraco suspeitíssimo, quando poderia estar caminhado por entre as indescritíveis ruelas ou visitando construções que nasceram antes de Dercy Gonçalves? Mas essa é a minha opinião.

Sobre a idade das coisas aqui, gostaria de lhe falar o seguinte: pernambucano é cheio de góga, porque Recife e Olinda têm “história”, porque nossos monumentos têm 450 anos e pá. O turista vai a Itamaracá e a galera fica falando: “esse aqui é o Forte Orange. Pense num negócio antigo, mago. É da época dos holandeses, visse? Dá pá tu?” Humildade nessa hora seria mais prudente. A casa de um cara que eu conheci é mais velha do que o DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Há lugares que foram erguidos no século XII antes de Cristo. Segura essa besteira agora, criança. O passeio ainda incluiu uma visita ao lago sagrado, com direito a bênçãos de um sacerdote do templo. Veja bem, sou um cara meio esquentado, geralmente perco a paciência com muita facilidade. Nesse sentido, a Índia tem me feito muito bem. Acontece que a tal bênção era paga e ninguém me avisou. Olhe, se quiser abençoar, tá de boa. Pode levantar a mão, pode me tocar, pode me chamar para dançar, enfim, fique à vontade para fazer munganga. Mas num cobre não. Eu sou radicalmente contra qualquer forma de pagamento compulsório a instituições religiosas. Ponto. Isso eu não discuto. Quando o caboclo terminou o ritual, virou cinicamente para mim e disse: “Ô, amado, a gente não trabalha, nosso ofício é espalhar a proteção dos deuses. Temos várias famílias para sustentar aqui. Então, contribua comigo, vá. Nem se afobe, porque a gente aceita EURO E DÓLAR TAMBÉM. Como você é simpático, vou cobrar só cinco mil Rupis (tipo, quase OITENTA DÓLARES)”. Aí, infelizmente, eu peguei ar. Cheguei no pé do ouvido dele e falei: “Meu senhor, se ligue na vida. Faça isso não que é feio. Vou pagar 500 rupis, porque quero ajudar na manutenção do templo”. Ele ficou meio errado e me perguntou se eu havia ficado contente com a bênção. Lógico! A bênção foi limpeza, ruim foi sentir aquela raiva em um lugar tão especial. Dei uma morgada monstra durante um tempo, mas depois resolvi esquecer, pois não valia a pena estragar o dia. Peguamos um busão, na volta, e chegamos às onze e meia do domingo em casa. Eita canseira boa.

Ontem,segunda-feira, fui a um show de “Puppets” (mamulengo, para ficar fácil de entender) no centro da cidade. Muito delicado, muito bonito. E extremamente engraçado. Os bonecos são bem feitos e as “esquetes”, originais. Tem até uma dancinha do “kama-sutra” com marionetes.

Bem, esse é um pequeno (oi?) registro sobre mais uma semana linda por aqui. Neste momento, despeço-me com muitas saudades de você, grande confidente. De novo, como não poderia deixar de ser, peço-lhe que envie um caloroso abraço para minhas mães. Eu as amo MUITO mesmo. Sinto falta de falar com elas, muita falta. Essa talvez, seja a única coisa que aperta meu coração: a saudade dos meus maiores amores.
Para você, desejo paz e saúde. Até breve!